
PARTE 1
— Se eu não colocar isso em você agora, você morre antes de estrear o vestido de noiva.
Renata Salazar se encostou contra a parede de troncos, com a respiração quebrada e os olhos fixos na tira preta que Efraín Ríos segurava entre os dedos.
O tecido soltava fumaça.
Não era grande. Não parecia uma arma. Mas lhe deu mais medo do que a faca de cabo de osso que ele tinha na outra mão.
A cabana cheirava a ocote queimado, gordura derretida, mezcal e uma erva amarga que arranhava sua garganta. Lá fora, a neve batia no vidro como se alguém jogasse punhados de sal contra a janela. Lá dentro, o fogão rugia, pintando de laranja o rosto duro daquele homem da serra.
— Isso é piche — sussurrou ela.
— Resina de pinho, sebo, arnica, carvão e iodo — respondeu ele, seco. — Queima o que está apodrecendo antes que suba para o sangue.
Renata olhou para a saia rasgada até o quadril. A ferida acima do joelho continuava aberta, feia, escura nas bordas, como se a montanha já tivesse começado a engoli-la.
— O senhor não é médico.
— Não.
— Nem sequer parece uma boa pessoa.
— Também não.
— Então por que eu deveria deixar?
Efraín levantou os olhos para ela pela primeira vez. Eram cinzentos, frios, cansados.
— Porque o homem que te deixou no caminho não queria que você chegasse viva.
6 horas antes, Renata havia pensado que o pior de viajar até a Sierra Madre de Durango seria decepcionar seu futuro marido ao vê-la descer do ônibus.
Tinha 25 anos, ombros largos, quadris grandes e uma altura que em Puebla sempre fora motivo de zombaria. Seu padrasto a chamava de “égua fina” quando queria humilhá-la diante das visitas. Sua mãe fingia não ouvir.
Depois da morte de seu pai, a casa deixou de ser casa. Roberto, o novo marido de sua mãe, vendeu móveis, ferramentas e até os brincos da avó. Mas não conseguiu vender a pequena horta que o pai de Renata havia deixado no nome dela.
Então apareceu o anúncio num jornal velho:
Homem da serra procura esposa por correspondência. Deve ser forte, honesta, trabalhadora. Beleza não necessária. Mentiras não toleradas.
Beleza não necessária.
Renata leu aquela frase até o papel amolecer entre seus dedos.
Escreveu sem enfeites. Disse que era grande, que cozinhava comida simples, que costurava mal, mas não desistia, que conseguia carregar mais peso do que muitos homens e que não pretendia fingir delicadeza para agradar ninguém.
3 semanas depois, chegou dinheiro para a passagem e uma nota breve:
Espero você na estação de El Salto. Leve roupa de frio.
Efraín Ríos.
Sua mãe chorou ao se despedir. Roberto sorriu demais.
— Lá sim vão colocar você para trabalhar — disse ele. — Vamos ver se agora você serve para alguma coisa.
Renata não respondeu. Subiu no ônibus com uma mala, uma Bíblia velha, o vestido de noiva enrolado em manta branca e os documentos da horta escondidos no forro.
Quando desceu em El Salto, o motorista, Jacinto Varela, jogou sua mala na lama.
— Aqui termina sua viagem, loirinha de Puebla.
— Não sou loirinha.
Jacinto a olhou de cima a baixo, com um sorriso sujo.
— Pois também não é noiva de revista.
Renata endireitou as costas.
— Então talvez o senhor Ríos não tenha pedido uma revista.
O homem cuspiu perto de suas botas.
— Pediu uma mulher forte, sim. Mas não sei se pediu uma mulher viva.
Ela sentiu o sangue gelar.
Antes que pudesse perguntar, Jacinto subiu no ônibus e arrancou. Deixou-a sozinha diante do caminho branco, com a neve caindo sobre seu chapéu e a estação vazia às suas costas.
Passaram-se 20 minutos.
Então Efraín Ríos apareceu montado numa mula, com outra mula atrás. Não cumprimentou. Não sorriu. Apenas tirou do bolso uma carta dobrada.
A carta de Renata.
— “Sou grande. Cozinho comida simples. Costuro mal, mas não desisto” — leu ele com voz rouca.
O rosto de Renata ardeu.
— Se veio zombar de mim, podia ter economizado a viagem.
Efraín dobrou o papel com cuidado.
— Não pedi bonita. Pedi honesta.
Por um instante, Renata não soube se aquilo era ternura ou pura falta de educação.
Então a mula levantou as orelhas.
Efraín virou a cabeça na direção dos pinheiros.
O homem áspero desapareceu de seu rosto. Em seu lugar surgiu alguém que conhecia o perigo antes de vê-lo.
— Não se mexa — disse.
Renata olhou para a floresta.
Entre a neve, um galho estalou.
Depois outro.
E, de dentro das árvores, saiu Jacinto Varela, sorrindo com uma pistola na mão.
PARTE 2
— Não banque o herói, Ríos — disse Jacinto. — Só vim buscar a mala e a mulher.
Renata sentiu o chão se abrir sob seus pés.
Efraín não respondeu. Desceu lentamente da mula, com uma mão perto da faca.
— Ela não é carga sua.
— Não, mas alguém pagou muito bem para que ela não fosse carga de ninguém.
Jacinto fez um gesto com a pistola. De entre os pinheiros, saíram mais 2 homens, cobertos com jorongos molhados, botas cheias de lama e o olhar de quem já tinha feito coisas piores.
Renata quis correr, mas a neve chegava até seus tornozelos. Um dos homens avançou em direção à mala. Ela se colocou na frente sem pensar.
— Não toquem nela!
O golpe veio rápido.
Uma coronhada contra seu ombro. Renata caiu de joelhos. A mala se abriu na lama e o vestido de noiva ficou meio para fora, branco contra a terra negra.
Jacinto se inclinou sobre ela.
— Seu padrasto disse que você era teimosa.
Renata deixou de sentir frio.
— Roberto?
Jacinto sorriu.
— Também disse que, se você morresse na serra, ninguém ia reclamar nada. Uma mulher grande ocupa muito espaço, não é?
Efraín se moveu então.
Não gritou. Não ameaçou. Apenas lançou a faca.
A lâmina se cravou no braço do homem que segurava a mala. A pistola de Jacinto disparou para o alto. As mulas se assustaram. Renata tentou se levantar e, no meio da confusão, um dos bandidos a empurrou contra uma armadilha velha para coiotes, escondida sob a neve.
O ferro abriu sua perna.
Renata gritou.
Efraín chegou até ela antes dos outros. Levantou-a como se ela não pesasse nada e a carregou em direção ao mato, enquanto os disparos arrancavam lascas de casca atrás deles.
Caminharam, correram, tropeçaram. Ela perdeu uma bota. A neve mordeu sua pele. O sangue descia quente pela perna, depois morno, depois quase frio.
Quando acordou, estava na cabana.
Efraín havia cortado sua saia. Tinha as mãos manchadas de sangue. O vestido de noiva pendia perto do fogão, encharcado numa ponta, porque ele o havia usado para envolver a mala durante a fuga.
— Meu vestido… — murmurou ela.
— Sua perna importa mais.
— O senhor não entende. Era a única coisa limpa que eu trazia.
Efraín ficou calado.
Depois colocou a tira preta sobre a borda de uma panela quente.
— Morda isto.
Ele lhe ofereceu um cinto.
— Não.
— Vai doer.
— A vida inteira já doeu em mim, senhor Ríos.
Ele a olhou como se aquelas palavras tivessem lhe atingido com mais força do que um tiro.
A tira entrou na ferida.
Renata sentiu fogo.
Gritou até ficar sem voz. Bateu no peito de Efraín. Insultou-o. Chamou-o de selvagem, bruto, assassino. Ele não se defendeu. Apenas segurou sua perna com firmeza, limpando o sangue e apertando a bandagem até que o tremor dela começasse a diminuir.
Quando a febre chegou, chegou também a meia verdade.
Renata acordou de madrugada e viu Efraín sentado junto à mesa, lendo um papel manchado de lama.
— O que é isso? — perguntou.
Ele não respondeu de imediato.
— Estava escondido no forro da sua mala.
Renata tentou se erguer.
— Meus documentos.
— Não apenas os documentos da horta.
Efraín deixou a folha sobre a manta.
Era uma carta escrita com a letra de sua mãe.
Renata reconheceu a inclinação de cada palavra.
Filha, me perdoe. Se você está lendo isto, é porque Roberto já fez algo imperdoável…
Renata sentiu o mundo se apagar.
Efraín virou a carta para a luz.
— Sua mãe não mandou você se casar para se livrar de você — disse ele. — Mandou porque sabia que Roberto planejava te matar.
Renata nem chegou a chorar.
Porque, naquele momento, do lado de fora da cabana, uma voz gritou entre a neve:
— Ríos! Entregue a mulher ou queimamos tudo!
PARTE 3
Renata não sabia o que doía mais: a perna aberta ou descobrir que sua mãe a havia salvado com uma mentira.
Lá fora, o vento castigava os pinheiros. A voz de Jacinto voltou a ser ouvida, mais perto.
— Sabemos que ela está aí! Só queremos os documentos!
Efraín apagou uma lamparina com um sopro. A cabana ficou iluminada apenas pelo fogão.
— Fique na cama — ordenou.
Renata soltou uma risada amarga.
— Há algumas horas o senhor disse que não pediu uma mulher pequena. Não comece agora a me tratar como uma.
Efraín a encarou.
Pela primeira vez, algo parecido com respeito completo atravessou seu rosto.
— Então escute bem. Há uma espingarda debaixo da mesa. Só tem 2 tiros.
— E o senhor?
Ele levantou a faca manchada.
— Eu tenho costume.
Jacinto golpeou a porta.
— Abra, montanhês! A mulher nem conhece você. Roberto disse que pagaria o dobro se você a deixasse desaparecer.
Renata apertou os dentes.
Tudo se encaixou de uma vez: a despedida falsa da mãe, o sorriso de Roberto, o motorista esperando vê-la descer sozinha, os homens na floresta, a mala aberta.
Não queriam Renata morta por ódio.
Queriam Renata morta por uma horta.
Por um pedaço de terra com abacateiros e um poço que seu pai havia defendido até o último dia.
— Meu pai sempre disse que aquela terra não se vendia — sussurrou.
Efraín se aproximou dela.
— Sua mãe escreveu que Roberto já tinha comprador. Um empresário de Atlixco. Mas precisava da sua assinatura… ou do seu atestado de óbito.
A porta rangeu sob outro golpe.
Renata enfiou a mão debaixo da mesa e encontrou a espingarda. Pesava mais do que imaginava, mas não mais do que 25 anos de humilhações.
— Eu não vou morrer para esse homem vender as árvores do meu pai.
Efraín assentiu uma única vez.
Depois abriu a porta.
Jacinto não esperava por isso.
Entrou com a pistola à frente, seguido por um de seus homens. O terceiro ficou do lado de fora com uma lata de querosene.
— Finalmente entendeu — disse Jacinto.
Efraín deu um passo para trás.
— Entrem. Está frio.
O bandido riu.
Esse foi seu erro.
Renata, das sombras, levantou a espingarda.
— E também está na hora da justiça.
Atirou no teto, não neles.
O estrondo sacudiu a cabana. Os homens se protegeram por instinto. Efraín se lançou sobre Jacinto, torceu seu pulso e a pistola caiu no chão. O outro bandido tentou correr, mas Renata preparou o segundo tiro e apontou para a lata de querosene que o homem do lado de fora segurava junto à parede.
— Dê mais um passo e nós queimamos todos juntos.
O homem ficou imóvel.
Não foi coragem pura. Os braços de Renata tremiam. Ela tinha febre. A bandagem ardia como se carregasse brasas debaixo da pele. Mas tinha vivido anos demais ouvindo que era grande demais, teimosa demais, incômoda demais.
Naquela noite, pela primeira vez, tudo isso serviu para que ela não quebrasse.
Efraín amarrou Jacinto e os outros com rédeas de couro. Depois, antes do amanhecer, colocou Renata numa mula e desceu com os 3 prisioneiros até El Salto.
O povoado os viu chegar quando o sino da igreja mal começava a tocar.
Renata vinha pálida, com o vestido de noiva sobre os ombros como manta, manchado de lama e sangue. As pessoas saíram da padaria, da fonda, do correio. Ninguém disse nada no começo.
Jacinto, sim.
— Ela é louca! Quis nos matar!
Renata ergueu a carta de sua mãe.
— Chamem o comandante.
O comandante chegou com 2 agentes e o rosto de quem já tinha visto muitas mentiras na vida. Mas leu a carta. Conferiu os documentos da horta. Ouviu Efraín. Depois encontrou no bolso de Jacinto um telegrama dobrado.
Não de Roberto, mas assinado por alguém que partiu a alma de Renata.
Matilde Salazar.
Sua mãe.
A mão de Renata se fechou sobre a manta.
— Não…
O comandante leu em voz alta:
“Se minha filha chegar viva, proteja-a. Meu marido pagou Varela para tirar os documentos dela e deixá-la morrer. Eu não consegui impedi-lo sem que ele me matasse também. Diga a ela que perdoe esta mãe covarde.”
Renata não chorou ali.
Não diante de Jacinto.
Não diante do povoado.
Não diante de quem a tinha visto chegar como uma noiva estranha, grande, ferida, coberta com o próprio vestido arruinado.
Chorou 2 dias depois, quando o médico de Durango lhe disse que ela conservaria a perna.
Efraín estava sentado do lado de fora do quarto, com o chapéu entre as mãos, como se não soubesse o que fazer com um milagre quando ele não vinha disfarçado de trabalho.
— O senhor pode ir embora — disse Renata quando ele entrou. — Já cumpriu sua parte.
— Não trouxe você para cumprir parte nenhuma.
— Trouxe por uma carta.
— E continuo acreditando no que ela dizia.
Renata olhou para a janela.
— Dizia que eu era grande.
— Dizia que você era honesta.
— Dizia que eu não era bonita.
Efraín demorou a responder.
— Isso a carta não dizia. Isso você acreditou porque os outros repetiram até parecer verdade.
Renata sentiu aquela frase doer mais do que a ferida.
Roberto foi preso em Puebla 1 semana depois. A mãe de Renata testemunhou contra ele com o rosto roxo e o corpo tremendo. O comprador da horta negou conhecer o plano, mas os recibos apareceram. Jacinto falou para se salvar e acabou afundando todos.
A horta continuou intacta.
Renata poderia ter voltado para Puebla.
Todos esperavam isso.
Mas, 3 meses depois, quando já caminhava com uma bengala e a cicatriz da perna parecia um galho torto sobre sua pele, voltou para a serra.
Não com vestido branco.
Não com medo.
Chegou com botas novas, uma trança longa e uma caixa de sementes de abacate embrulhada em jornal.
Efraín a esperava diante da cabana.
— Não trouxe vestido — disse ela.
— Não pedi vestido.
— Também não trouxe promessas bonitas.
— Não pedi bonitas.
Renata sorriu pela primeira vez sem esconder a boca.
— Então o que pediu, senhor Ríos?
Ele tirou do bolso a velha carta dela, dobrada nas mesmas marcas, gasta pelo uso.
— Uma mulher forte, firme, honesta, que não tivesse medo do silêncio.
— Era isso que dizia em inglês no anúncio original — corrigiu ela, erguendo uma sobrancelha.
Efraín baixou os olhos, quase envergonhado.
— Copiei de um jornal gringo. Soava bem.
Renata soltou uma gargalhada.
A risada subiu até os pinheiros, limpa, viva, impossível de enterrar.
Não houve casamento grande. Só o juiz do povoado, 2 testemunhas, pão doce da fonda e uma manta branca estendida sobre a mesa. O vestido manchado nunca foi jogado fora. Renata o cortou em tiras e, com uma delas, envolveu o tronco da primeira árvore que plantou junto à cabana.
— Para que lembre — disse Efraín.
— Não — respondeu ela. — Para que cresça.
Anos depois, quando as pessoas contavam a história, alguns diziam que Efraín havia salvado Renata de morrer na neve.
Mas quem a conheceu de verdade sabia que aquilo era só metade.
Efraín salvou sua perna.
A carta de sua mãe salvou sua vida.
Mas Renata salvou a si mesma no dia em que entendeu que não era grande demais para ser amada.
Era forte demais para continuar vivendo pequena.
