
PARTE 1
—Se essa galinha botar mais uma pata no meu roçado, Rosana, eu vou cobrar aluguel dela na feira de sábado.
Damião Alves disse aquilo com o chapéu baixo, os braços cruzados e a cara fechada de homem que já tinha perdido a paciência antes mesmo do sol esquentar o chão.
Do outro lado da cerca torta, Rosana Vieira segurava um balde de milho e olhava para a galinha carijó que ciscava tranquilamente entre os pés de feijão dele, como se fosse dona do mundo.
—Ela não invadiu nada, Damião. A cerca é que está no lugar errado desde o tempo do seu pai.
—Meu pai levantou essa cerca com as próprias mãos.
—Pois levantou 1 metro e meio para dentro da terra do meu pai.
A galinha cacarejou bem na hora, como se estivesse concordando.
Damião apertou os olhos.
—Até a galinha agora virou advogada?
Rosana riu. Não foi risada educada. Foi daquelas que escapam do peito sem pedir licença, clara, viva, bonita demais para uma manhã de poeira vermelha no alto da Serra da Ibiapaba.
Damião tentou continuar sério, mas falhou.
Sorriu.
E aquele sorriso foi o começo da confusão que o povoado de Pedra Miúda nunca mais esqueceu.
Damião tinha 34 anos, morava sozinho num sítio herdado do pai, criava umas poucas cabeças de gado magro e plantava feijão quando a chuva deixava. Era conhecido por ser trabalhador, honesto e teimoso feito burro empacado em ladeira.
Rosana tinha 29, vivia no terreno ao lado desde que a mãe morreu e o pai ficou entrevado numa rede, dependendo dela para tudo. Cuidava da horta, das galinhas, de 2 cabras e ainda fazia doce de banana para vender na feira de Tianguá.
As famílias Alves e Vieira se conheciam havia décadas, mas nunca se misturavam demais. Havia respeito, ajuda em tempo de seca e muita desconfiança em tempo de medição de terra.
A cerca entre os 2 sítios era mais velha que muita gente viva ali. Torta, remendada com arame, pedaços de madeira e promessa.
E foi justamente por causa dela que a galinha Quitéria, bicho atrevido de Rosana, começou a atravessar para o roçado de Damião 3 vezes por semana.
O problema é que a briga virou costume.
Na segunda, Damião devolvia a galinha reclamando.
Na quarta, Rosana dizia que ele devia agradecer pela visita de uma criatura tão inteligente.
No sábado, o povo da feira já esperava ouvir a novidade.
—Hoje foi a galinha ou foi o dono da galinha que atravessou a cerca? —perguntava seu Nicácio, rindo atrás da banca de farinha.
Damião fingia irritação.
Rosana fingia inocência.
Mas todo mundo via que os 2 demoravam mais do que o necessário em cada conversa.
A primeira grande discussão aconteceu quando a égua de Damião entrou na horta de Rosana e comeu quase metade dos pés de abóbora.
—Sua égua tem paladar caro —disse Rosana, olhando o estrago.
—Ela escolheu bem.
—Então o dono dela vai pagar bem.
Damião pagou dobrado.
Rosana recebeu sem sorrir, mas naquela noite, enquanto mexia o tacho de doce no fogão de lenha, percebeu que estava esperando ouvir os passos dele perto da cerca.
O povoado começou a falar.
Dona Cida, parteira aposentada, jurava que aquilo era namoro.
Seu Nicácio dizia que era guerra.
O padre Ambrósio, que conhecia os 2 desde pequenos, resumiu:
—Quando duas pessoas brigam olhando demais no olho uma da outra, ou vira casamento ou vira tragédia.
Quem não gostava nada daquilo era Geraldo, irmão mais velho de Rosana.
Ele morava em Sobral, aparecia pouco, ajudava menos e falava como se fosse dono de tudo.
Quando soube que Damião andava consertando porteira no terreno de Rosana, chegou num domingo levantando poeira com uma moto velha e gritando antes mesmo de descer.
—Tu perdeu o juízo, Rosana? Botando homem solteiro dentro da terra do nosso pai?
—Ele só arrumou a porteira.
—Homem nenhum arruma nada de graça.
Damião ouviu do outro lado da cerca.
Rosana ficou vermelha, não de vergonha, mas de raiva.
—Cuidado com o que fala.
Geraldo apontou para Damião.
—Esse aí quer é tomar nosso pedaço de chão. Primeiro começa com galinha, depois com cerca, depois entra na casa.
Damião deu um passo à frente.
—Repete olhando para mim.
Rosana se meteu entre os 2.
—Aqui ninguém vai brigar.
Mas Geraldo sorriu com maldade.
—Vai sim. Porque eu trouxe um comprador. Essa terra vai ser vendida, nem que eu tenha que tirar minha irmã daqui arrastada.
Rosana gelou.
Damião olhou para ela.
E, pela primeira vez desde a história da galinha, ninguém no terreiro teve vontade de rir.
Geraldo tirou do bolso um papel amassado e disse que Rosana já não mandava mais em nada.
PARTE 2
—Meu pai nunca assinaria isso —Rosana disse, com a voz tremendo.
Geraldo abriu o papel diante dela como quem mostra uma sentença.
—Assinou sim. Procuração. Eu posso vender a parte dele e resolver essa miséria de uma vez.
O pai de Rosana, seu Anselmo, estava na rede, magro, calado, os olhos fundos. Desde o derrame, falava pouco e com dificuldade. Quando viu o papel na mão do filho, tentou levantar, mas o corpo não obedeceu.
—Pai? —Rosana correu até ele.
O velho apertou a mão dela com força, a única resposta que conseguiu dar.
Damião observava tudo com o maxilar duro.
Geraldo continuou:
—O comprador vem depois da missa. Gente de dinheiro. Vai fazer pousada aqui em cima da serra. Vocês que vivem enterrados na lama vão agradecer quando virem algum trocado.
—Essa terra é a vida dela —Damião disse.
—E você é o quê? Noivo? Marido? Dono?
A pergunta bateu no terreiro como pedra.
Rosana ficou parada.
Damião também.
Porque não eram nada disso.
E talvez fosse exatamente isso que doía.
Naquela semana, Geraldo espalhou pelo povoado que Damião estava seduzindo Rosana para ficar com as terras dela. Disse que os 2 se encontravam escondidos na cerca, que ele já dormia na casa dela, que o velho Anselmo estava sendo manipulado.
Mentira corre mais rápido que chuva em telhado de zinco.
Na feira, Rosana ouviu cochichos.
Na igreja, algumas mulheres desviaram os olhos.
Dona Cida foi a única que segurou sua mão e disse:
—Minha filha, quando o povo começa a falar demais, é porque alguém está escondendo algo pior.
Damião quis enfrentar Geraldo na venda, mas Rosana proibiu.
—Se você brigar, ele vai usar isso contra mim.
—E se eu ficar calado?
—Aí ele me destrói devagar.
Na noite de sexta, uma tempestade caiu sobre Pedra Miúda. Vento forte, trovão batendo nos morros, água descendo pelas pedras. Rosana estava tentando prender as galinhas quando ouviu um grito vindo do curral de Damião.
Correu sem pensar.
Encontrou Damião caído perto da porteira, com a perna presa sob um tronco molhado. A enxurrada subia rápido.
—Vai embora! —ele gritou.—Essa água vai te levar!
—Cala a boca, homem teimoso!
Ela puxou, empurrou, chorou de raiva e medo. Quando finalmente soltou a perna dele, os 2 caíram na lama, ofegantes, grudados um no outro enquanto a chuva despencava.
Damião segurou o rosto dela.
—Rosana…
Ela quase respondeu.
Mas uma luz cortou a chuva.
Era Geraldo, com 2 homens e uma lanterna.
Ele viu os 2 no chão, molhados, próximos demais.
No dia seguinte, antes da missa, o povoado inteiro já sabia da versão dele.
—Minha irmã foi pega de madrugada na terra daquele homem —Geraldo anunciou na porta da igreja.—E agora eu tenho motivo de sobra para tirar ela de casa.
Rosana tentou falar, mas ninguém a ouviu.
Então seu Anselmo apareceu apoiado em Dona Cida, pálido, tremendo, segurando uma pequena caixa de lata.
Dentro dela havia um documento antigo.
E o nome escrito no topo fez Geraldo perder a cor do rosto.
PARTE 3
A caixa de lata estava enferrujada, amarrada com um pedaço de pano azul que Rosana reconheceu imediatamente.
Era do vestido que a mãe dela usava nas festas de São João.
Seu Anselmo segurava aquilo como se segurasse o último pedaço de dignidade da família.
Dona Cida falou por ele, porque o velho mal conseguia formar as palavras.
—Anselmo mandou buscar isso ontem de noite. Ele disse que estava escondido no fundo do baú, junto com os documentos da falecida Lourdes.
Geraldo avançou.
—Me dá essa caixa.
Damião entrou na frente.
—Encosta nele e você vai ter que passar por mim.
O povo, que até então cochichava, ficou em silêncio.
Dona Cida abriu a caixa.
Havia 3 papéis amarelados, uma escritura antiga, um recibo de pagamento e uma carta escrita com letra de mulher.
O padre Ambrósio pegou a escritura, ajeitou os óculos e leu em voz alta.
A terra onde Rosana morava não estava apenas no nome de Anselmo.
Metade dela havia sido passada para Lourdes, mãe de Rosana, antes do casamento. E, no verso, havia uma declaração registrada anos depois: a parte de Lourdes ficaria para Rosana, porque era ela quem cuidava da casa, do pai e do sítio.
Geraldo riu nervoso.
—Isso não vale nada.
—Vale sim —disse o padre.—Tem assinatura de cartório.
Rosana levou a mão à boca.
Damião olhou para ela com uma mistura de alívio e dor.
Mas Dona Cida ainda não tinha terminado.
Ela abriu a carta.
A voz dela ficou mais baixa.
—“Minha filha Rosana, se um dia seu irmão tentar vender esta terra dizendo que é pelo bem da família, não acredite. Geraldo já pediu dinheiro a agiota, já me pediu para convencer seu pai a assinar papel em branco e já falou que mulher sozinha não merece terra. Esta casa é sua raiz. Não deixe arrancarem você dela.”
Rosana começou a chorar.
Não foi choro bonito, desses de novela. Foi choro de quem entende, tarde demais, que a própria mãe passou os últimos dias de vida tentando protegê-la de dentro da cama.
Geraldo perdeu a máscara.
—Essa velha sempre envenenou vocês contra mim!
Seu Anselmo, num esforço que fez todos prenderem a respiração, levantou a cabeça e conseguiu dizer:
—Ladrão.
Uma única palavra.
Mas ela caiu sobre Geraldo como sentença.
O comprador que estava ao lado dele recuou, sem querer se envolver.
Damião pegou a procuração da mão de Geraldo e mostrou ao padre.
—Essa assinatura aqui não é do seu Anselmo.
O padre comparou com a escritura antiga.
A diferença era clara.
O povoado inteiro viu.
Geraldo tentou rir, tentou gritar, tentou dizer que era perseguição. Mas quanto mais falava, mais se enterrava.
Foi seu Nicácio quem soltou:
—Então era você que queria vender a terra da própria irmã e ainda sujar o nome dela?
A vergonha mudou de lado.
As mulheres que tinham cochichado na igreja baixaram os olhos.
Os homens que tinham acreditado em Geraldo começaram a se afastar.
Rosana enxugou o rosto e deu um passo à frente.
—Você não vai vender minha casa.
—Você vai se arrepender —Geraldo cuspiu.
—Já me arrependi. De ter chamado você de irmão por tanto tempo.
Damião ficou ao lado dela, mas não falou por ela.
Aquilo Rosana percebeu.
Ele não tentou salvá-la como se ela fosse fraca.
Ele apenas permaneceu ali, firme, para que ninguém a empurrasse de novo para o medo.
Nos dias seguintes, a verdade correu pelo povoado com a mesma velocidade da mentira.
A procuração foi levada à delegacia de Tianguá.
Geraldo fugiu por 2 semanas, depois apareceu pedindo acordo, dizendo que estava devendo dinheiro e que só queria “resolver a vida”.
Rosana não cedeu.
Seu Anselmo chorou ao ouvir a filha dizer que não abriria mão da terra.
—Mãe morreu tentando me proteger. Eu não vou trair isso.
Damião voltou para o lado dele da cerca, mas alguma coisa entre os 2 já tinha mudado.
A galinha Quitéria continuou atravessando.
Só que agora, quando Damião a devolvia, já não fingia tanta irritação.
Um mês depois, durante a festa de Nossa Senhora das Graças, Rosana estava perto da mesa de bolo de milho quando um rapaz de outro povoado a chamou para dançar.
Ela olhou para Damião.
Ele estava parado perto da porta do salão, segurando um copo de café, com a mesma cara de homem que pensa demais e fala de menos.
Tentou fazer graça.
—Vai lá. Desse jeito, você acaba ficando para titia esperando alguém tomar coragem.
Rosana se aproximou devagar.
—Não fico, não.
—Não?
Ela sorriu.
—Só fico se você não pedir.
Damião parou de respirar por 1 segundo.
O rapaz desistiu antes mesmo da resposta.
Naquela noite, Damião voltou para casa pela estrada de barro olhando as estrelas por cima da serra. Pensou na galinha, na cerca, na chuva, na mão de Rosana puxando sua perna da lama, na coragem dela diante do irmão.
Pensou que tinha passado meses chamando de discussão aquilo que, na verdade, era saudade antes da hora.
Na manhã seguinte, ele apareceu no sítio dela com um mourão novo e uma cavadeira.
—O canto sul da sua cerca está frouxo —disse.
Rosana cruzou os braços.
—Você veio consertar cerca ou enrolar conversa?
—As duas coisas.
Ele fincou o mourão, apertou o arame, suou em silêncio. Rosana trouxe café em caneca esmaltada. Os 2 se sentaram no tronco perto da horta.
Damião limpou a garganta.
—Eu fui lento.
—Foi.
—Mais do que devia.
—Muito mais.
—Eu gosto de você, Rosana. Gosto da sua risada, da sua coragem, do jeito que você enfrenta gente ruim sem virar gente ruim também. Gosto até da sua galinha, embora isso me custe admitir.
Ela olhou para ele, os olhos brilhando.
—Cuidado. Quitéria pode se achar importante.
—Ela já se acha.
Rosana riu.
Damião segurou a caneca com força.
—Quero vir aqui direito. Com respeito. Quero pedir sua mão ao seu pai, mesmo sabendo que você não pertence à mão de ninguém. Quero construir uma vida com você, se você quiser.
Rosana ficou quieta.
Depois disse:
—Essa foi a declaração mais atravessada que eu já ouvi.
Damião baixou os olhos.
—Foi ruim?
—Foi sua. Então foi boa.
Eles começaram o namoro sem alarde, mas o povoado inteiro soube antes do fim da semana.
Dona Cida apenas disse:
—Demorou.
Seu Anselmo, quando Damião pediu permissão para frequentar a casa, apertou a mão dele com força e falou devagar:
—Cuida. Mas respeita.
—As duas coisas —Damião respondeu.
Casaram-se no ano seguinte, numa manhã clara, com cheiro de café torrado, bolo de macaxeira e flor do mato enfeitando a pequena capela. Rosana usou um vestido simples, costurado por uma vizinha. Damião quase chorou, mas negou até o fim da vida.
Uniram os sítios, não no papel primeiro, mas no costume: a horta dela cresceu, o gado dele engordou, a casa ganhou varanda nova e a cerca torta finalmente foi refeita.
Mesmo assim, deixaram uma pequena abertura perto do pé de umbu.
—Para Quitéria não perder o costume —Rosana dizia.
Damião reclamava.
Mas nunca fechou.
Tiveram 3 filhos. Criaram todos ensinando que terra não é só chão, é memória. Que amor não precisa nascer de flor comprada, às vezes nasce de discussão honesta, café quente e gente que fica quando o mundo aponta o dedo.
Geraldo apareceu anos depois, envelhecido, quebrado, pedindo ajuda.
Rosana não o deixou passar fome.
Mas também não devolveu a ele o direito de ferir.
—Perdão não é porta aberta para a mesma faca —ela disse.
Décadas se passaram.
A serra mudou, a estrada ganhou asfalto, alguns jovens foram embora, outros voltaram. Damião ficou com o cabelo branco. Rosana passou a andar mais devagar. Sentavam-se toda tarde na varanda, olhando o sol cair atrás dos morros.
Um dia, já velhos, ele olhou para ela e disse:
—Ainda acho que aquela galinha me devia aluguel.
Rosana sorriu, com a mesma luz da primeira manhã.
—E eu ainda acho que sua cerca estava errada.
—Estava não.
—Estava sim.
Ele segurou a mão dela.
—Ainda bem.
Rosana olhou para ele.
—Ainda bem?
—Se a cerca estivesse certa, talvez você nunca tivesse vindo brigar comigo.
Ela apertou os dedos dele.
Lá longe, uma galinha ciscava perto da antiga abertura do arame.
E os 2 ficaram em silêncio, entendendo uma coisa que muita gente passa a vida sem aprender: às vezes, Deus não manda o amor pela porta da frente.
Às vezes, manda por uma cerca torta, no passo atrevido de uma galinha, só para ver quem tem coragem de rir, discutir e ficar.
