
Parte 1
Um torcedor rasgou uma camisa de Ronaldinho Gaúcho diante do banco do Milan e gritou que o bruxo estava morto, enquanto 57.000 pessoas tremiam o San Siro naquela noite de abril de 2009.
Ronaldinho ouviu. Fingiu não ouvir, mas ouviu cada sílaba como se tivesse sido dita dentro do seu peito. Sentado no banco de reservas, com o agasalho vermelho e preto fechado até o pescoço, ele mantinha os olhos no gramado, mas a cabeça estava longe dali. Aos 29 anos, o homem que já fizera estádios inteiros se levantarem apenas para aplaudir um drible agora lutava para não abaixar a cabeça diante de uma arquibancada que começava a duvidar dele.
Os jornais italianos tinham sido cruéis naquela semana. Diziam que o brasileiro estava acabado, que sorria demais e corria de menos, que a magia de Barcelona tinha ficado presa em algum passado brilhante demais para voltar. Carlo Ancelote, pressionado por dirigentes e imprensa, deixou Ronaldinho fora da escalação inicial mais uma vez. E aquilo doía mais do que qualquer manchete.
No túnel, antes do jogo, Kaká se aproximou dele com a calma de quem conhecia o peso de vestir uma camisa grande.
— Dinho, hoje pode ser sua noite.
Ronaldinho tentou sorrir.
— Hoje eu começo sentado, Kaká.
— Às vezes Deus faz o artista esperar para todo mundo prestar atenção quando ele entra.
Ronaldinho baixou os olhos. Queria acreditar, mas a dúvida já tinha feito morada dentro dele. David Beckham, no banco ao seu lado, percebeu suas mãos apertadas uma contra a outra, tão fortes que os dedos estavam quase brancos.
— Ron, você ainda assusta qualquer defesa do mundo.
— Assustava, David.
— Não fala como se fosse passado.
Ronaldinho não respondeu. Do outro lado do campo, os jogadores do Atalanta aqueciam com confiança. Nas primeiras fileiras, câmeras buscavam o rosto dele a cada minuto, como se esperassem uma lágrima, um gesto de irritação, qualquer sinal de queda para vender no dia seguinte.
O jogo começou e logo virou pesadelo. O Milan parecia pesado, sem alma, sem velocidade. Gattuso gritava com todos, Ambrosini corria atrasado, Inzaghi desperdiçava chances que normalmente guardaria até de olhos fechados. Aos 18 minutos, o Atalanta marcou o primeiro. Aos 37, marcou o segundo.
2 a 0.
O San Siro vaiou.
A vaia não era apenas para o time. Ronaldinho sentiu como se parte dela procurasse seu nome, seu corpo parado, sua história interrompida. Um fotógrafo se aproximou demais do banco, mirando a lente no rosto dele. Ronaldinho virou para o lado. Não queria que registrassem o instante exato em que um homem começa a acreditar nos inimigos.
No intervalo, o vestiário parecia uma sala sem ar. Chuteiras batiam no chão, jogadores evitavam olhar uns para os outros, e Carlo Ancelote caminhava de um lado a outro com o rosto vermelho de raiva.
— Vocês estão jogando como se essa camisa não pesasse nada!
Ninguém respondeu.
Ancelote virou para Inzaghi.
— Pipo, desde quando você precisa de 3 chances para lembrar quem é?
Inzaghi apertou os lábios.
— Eu vou resolver.
— Vai resolver quando? Quando o estádio estiver vazio?
Marek Jankulovski estava sentado perto da maca, segurando o joelho direito. O médico balançou a cabeça para o técnico. Não dava para continuar.
Paolo Maldini, aos 41 anos, levantou-se devagar. Mesmo perto do fim da carreira, ainda tinha uma autoridade que silenciava qualquer sala.
— Mister, é hora de arriscar.
Ancelote olhou para ele e entendeu. Depois olhou para Ronaldinho, que estava sentado no canto, encarando o próprio reflexo no espelho. O rosto do brasileiro parecia mais cansado do que deveria. Não era cansaço de pernas. Era de alma.
— Ele não está bem há meses.
Maldini respondeu sem elevar a voz.
— Mas ele ainda é Ronaldinho.
O silêncio caiu pesado. Kaká olhou para o amigo. Beckham também. Gattuso, ainda irritado, cruzou os braços e murmurou:
— Se tem alguém capaz de virar esse inferno, é ele.
Ancelote se aproximou de Ronaldinho.
— Você entra no segundo tempo.
Ronaldinho levantou a cabeça, como se tivesse ouvido errado.
— Eu?
— Pela esquerda. Liberdade total.
Aquelas 2 palavras atravessaram o vestiário como um raio: liberdade total. Ronaldinho sentiu algo antigo acordar dentro dele, algo que vinha das ruas de Porto Alegre, das peladas sem câmera, dos dribles feitos só por alegria.
Ancelote abaixou o tom.
— Esquece os jornais. Esquece quem te chamou de acabado. Hoje eu quero o menino que jogava sorrindo antes de saber que o mundo estava olhando.
Ronaldinho engoliu seco.
— Eu não vou me esconder.
Kaká colocou a mão no ombro dele.
— Então vai lá e mostra para eles quem voltou.
Quando Ronaldinho saiu para aquecer na lateral, o estádio inteiro começou a murmurar. Alguns aplaudiram. Outros vaiaram. E, no meio daquele barulho, ele ouviu novamente o torcedor da camisa rasgada gritar que sua história tinha acabado.
Dessa vez, Ronaldinho olhou para a arquibancada.
E sorriu.
Parte 2
Aos 15 minutos do segundo tempo, Carlo Ancelote fez o sinal, e o San Siro pareceu prender a respiração quando Ronaldinho tirou o agasalho. O placar ainda marcava 2 a 0 para o Atalanta, mas havia algo diferente no ar, como se o estádio inteiro percebesse que uma última chance estava sendo entregue não apenas a um jogador, mas a uma lenda ferida. Ronaldinho entrou pela esquerda, e o primeiro toque já mudou o ruído da arquibancada. A bola veio alta, difícil, quase cruel, e ele matou no peito com uma suavidade que fez o marcador do Atalanta chegar atrasado antes mesmo de tentar o bote. Um giro curto, uma finta de corpo, e o defensor ficou para trás como se tivesse tropeçado no próprio medo. A torcida rugiu, surpresa consigo mesma, porque reconheceu naquele gesto algo que achava perdido. No banco, Beckham se levantou. Kaká, dentro de campo, abriu os braços pedindo a bola como se chamasse o amigo de volta à vida. Aos 23 minutos, Ronaldinho recebeu no meio, cercado por 2 adversários, e em vez de recuar, olhou por cima do ombro e deu um passe de calcanhar impossível, atravessando a defesa até encontrar Seedorf entrando na área. O holandês bateu forte. 2 a 1. O estádio explodiu, mas Ronaldinho não comemorou como herói; apontou para Seedorf, como se dissesse que o jogo ainda tinha muito a devolver. O Atalanta sentiu o golpe e passou a caçá-lo em campo. Uma entrada dura o derrubou perto da lateral, e por 1 segundo todos acharam que ele ficaria no chão, entregue à dor e ao medo. Gattuso correu para tirar satisfação, Maldini segurou o companheiro, e Ronaldinho levantou devagar, limpando a grama do uniforme com uma calma provocadora. Aquilo incendiou o Milan. Aos 28 minutos, ele pegou a bola de novo, arrancou pela intermediária e driblou 3 jogadores em sequência, não com velocidade absurda, mas com aquela malícia de quem faz o adversário escolher errado antes de tocar na bola. Inzaghi se mexeu entre os zagueiros, recebeu o passe perfeito e finalizou sem piedade. 2 a 2. O San Siro virou um animal faminto. Nas tribunas, dirigentes que já discutiam vender Ronaldinho se entreolharam em silêncio. Os jornalistas começaram a apagar manchetes prontas. Mas a noite ainda não tinha mostrado sua ferida mais funda. Aos 35 minutos, depois de uma perda no meio, Ronaldinho voltou para recuperar a bola, algo que os críticos diziam que ele não fazia mais. Roubou, avançou, cortou para dentro e chutou colocado da entrada da área. A bola entrou no ângulo. 3 a 2. Ele correu para o banco e beijou o escudo do Milan, mas, antes que os companheiros o abraçassem, apontou para o próprio peito, como quem lembrava ao mundo que ainda havia coração ali. Então veio o minuto 42, o escanteio de Pirlo, a sobra na entrada da área, e Ronaldinho, cercado por corpos e flashes, decidiu tentar o impossível.
Parte 3
A bola subiu como se o tempo tivesse ficado mais lento. Ronaldinho girou o corpo no ar e acertou uma bicicleta limpa, violenta e perfeita. Por 1 segundo, ninguém entendeu o que estava vendo. A bola passou por baixo do travessão, o goleiro ficou imóvel, e o San Siro explodiu como se tivesse testemunhado uma ressurreição.
4 a 2.
Ronaldinho caiu de joelhos no gramado e levou as mãos ao rosto. Não tentou esconder o choro. Chorou como quem tinha segurado meses de humilhação, cobrança, saudade, medo e solidão. Os companheiros correram até ele. Gattuso foi o primeiro a chegar, quase o derrubando de vez no abraço.
— Onde você estava escondido, bruxo?
Ronaldinho não conseguia falar. Apenas ria e chorava ao mesmo tempo.
Kaká ajoelhou ao lado dele.
— Eu disse que era sua noite.
— Eu achei que tinha perdido isso.
— Ninguém perde o que nasceu dentro.
O jogo ainda ganhou mais um gol do Milan, com assistência de Ronaldinho. 5 a 2. Mas, para quem viu, o placar foi menor que a imagem: o brasileiro que todos chamavam de acabado saindo de campo aplaudido de pé por um estádio que, minutos antes, o olhava com desconfiança.
Quando o árbitro apitou o fim, Ronaldinho caminhou lentamente até a lateral. O mesmo torcedor que rasgara a camisa agora segurava o pedaço do tecido contra o peito, imóvel, com lágrimas nos olhos. Não pediu desculpas em voz alta, talvez por vergonha. Apenas levantou o que restava da camisa como se fosse uma bandeira quebrada.
Ronaldinho viu. Dessa vez, não desviou.
Na entrevista depois do jogo, os repórteres se empurraram em volta dele. Queriam uma frase contra os críticos, contra os jornais, contra quem tinha duvidado. Queriam vingança em forma de manchete. Mas Ronaldinho respirou fundo e falou com a voz ainda embargada.
— Eu passei meses difíceis. Teve dia em que eu olhei no espelho e não reconheci o jogador que estava ali.
Um jornalista perguntou se ele se sentia vingado.
Ronaldinho balançou a cabeça.
— Não. Vingança não faz a bola voltar a sorrir. Hoje eu só lembrei por que comecei a jogar.
Carlo Ancelote entrou na sala de imprensa pouco depois. O rosto dele tinha uma mistura de alívio e orgulho.
— Classe não desaparece. Às vezes fica soterrada por medo, pressão e tristeza. Hoje Ronaldinho tirou tudo isso de cima.
Nos dias seguintes, a Itália mudou o tom. Os mesmos jornais que o chamavam de acabado agora estampavam sua bicicleta em páginas inteiras. Chamavam-no de “Il Mago Ritornato”. Diziam que o bruxo havia voltado, mas dentro da casa de Ronaldinho a vitória tinha outro significado. Dona Miguelina ligou do Brasil chorando.
— Meu filho, eu sabia que seu sorriso não tinha morrido.
Roberto de Assis, que antes falava em voltar ao Brasil, ficou em silêncio por alguns segundos antes de dizer:
— Ron, talvez você não precisasse provar nada para a Europa. Talvez só precisasse provar para si mesmo que ainda queria ficar.
A transformação apareceu nos treinos. Ronaldinho chegava mais cedo, brincava com os jovens, inventava passes, ria de novo sem parecer obrigado. Kaká observava de longe e sorria, porque sabia que aquela alegria era o verdadeiro termômetro do amigo.
Semanas depois, contra o Barcelona, no Camp Nou, Ronaldinho voltou ao estádio onde tinha sido rei. Mais de 90.000 pessoas o aplaudiram de pé no aquecimento. Ele não marcou, mas deu 2 assistências, comandou o jogo e saiu ovacionado pelas 2 torcidas. Ao deixar o campo, tocou o coração e olhou para o céu.
Na entrevista, perguntaram se aquela era a prova definitiva de que Ronaldinho ainda era gigante.
Ele sorriu, aquele sorriso que o mundo achava que tinha perdido.
— Eu não precisava provar que ainda era gigante. Só precisava lembrar que ainda amava a bola.
O Milan terminou a temporada mais forte, e Ronaldinho voltou a decidir jogos importantes. Mas, para ele, nenhuma noite teve o peso daquela contra o Atalanta. Não foi apenas uma virada. Foi um homem escolhendo não aceitar o enterro antes da hora.
Anos depois, quando perguntavam qual momento mais o marcou, ele não citava primeiro a Bola de Ouro de 2005, nem a Champions League de 2006. Citava aquela noite em Milão.
Porque ali, aos 29 anos, diante de vaias, manchetes cruéis e uma camisa rasgada na arquibancada, Ronaldinho Gaúcho entendeu que a pior derrota não é perder a forma, o lugar ou os aplausos.
A pior derrota é acreditar que os outros têm o direito de escrever o fim da sua história.
E naquela noite, com uma bicicleta impossível e lágrimas no rosto, o bruxo pegou a caneta de volta.
