
Parte 1
Dona Mercedes foi arrastada até a frente do poço do rancho com a corda já posta no pescoço, enquanto o próprio cunhado dizia ao povoado que ninguém devia se meter em “assuntos de família”.
O sol de Sonora caía pesado sobre a terra rachada. O velho mezquite, onde seu marido Julián havia pendurado uma rede quando ainda era vivo, rangia com o vento quente. Diante da casa de adobe, 4 homens esperavam que a viúva assinasse a venda do rancho El Aguaje. Não era um rancho grande, mas tinha água, e naquela parte do deserto a água valia mais que o sobrenome.
O homem que segurava os papéis era Roque Salvatierra, irmão mais novo de Julián. Usava camisa branca, chapéu fino e botas tão limpas que pareciam um insulto. Ao seu lado estavam um agente judicial aposentado, um rapaz nervoso com uma pistola nova e um capataz de costas largas que brincava com um chicote como se fosse uma víbora.
— Assine, Mercedes. Não cause mais vergonha.
Ela, com o rosto inchado pelo primeiro golpe, olhou para a escritura e depois para o túmulo de Julián, marcado com pedras brancas atrás da roda d’água.
— Julián está enterrado aqui. Este rancho não está à venda.
Roque sorriu sem alegria.
— Julián está morto. E os mortos não pagam dívidas.
O povoado observava do caminho, atrás da cerca de madeira. Olhavam as mulheres com os xales apertados, olhavam os homens baixando a cabeça. Ninguém queria briga com os Salvatierra nem com os homens da prefeitura. Todos sabiam que Roque passava meses dizendo que Mercedes estava velha, sozinha e teimosa. Todos sabiam também que aquela dívida cheirava estranho.
O capataz estalou o chicote. O som explodiu no ar e até as galinhas correram.
Mercedes estremeceu, mas não chorou.
— Uma assinatura e tudo acaba — disse Roque, aproximando a pena dela. — Você vai para Hermosillo com algum dinheiro. Compra uma cama limpa. Para de se fazer de mártir.
— Não.
Foi uma palavra pequena, mas caiu como pedra em poço fundo.
O agente judicial aposentado apertou a corda e a ergueu apenas um pouco, o suficiente para que as pontas das botas de Mercedes roçassem a terra. Uma menina gritou da cerca e a mãe lhe tapou a boca. O rapaz nervoso fez o sinal da cruz, mas não abaixou a arma.
Então um disparo partiu o vento.
O chicote se cortou em 2 pedaços antes de tocar as costas da viúva. O couro caiu na poeira como uma cobra morta.
Do alto do morro apareceu um cavaleiro solitário. Vinha coberto por um chapéu escuro, montado num cavalo preto que avançava devagar, sem se assustar com os gritos. Ninguém conseguiu ver bem seu rosto, mas a forma como segurava o rifle fez até os cães se calarem.
— Esse chicote não encosta nela outra vez — disse o cavaleiro. — Quem tentar fica sem mão.
Roque deu um passo para trás.
— Isto é legal.
— Não. Isto é covardia com selo.
O rapaz nervoso tentou levantar a pistola. Outro disparo soou e a arma voou de sua mão. O jovem caiu sentado, chorando de susto.
O cavaleiro desceu do morro sem pressa. Cortou a corda com um canivete velho e segurou Mercedes antes que ela caísse. Ela respirou com dificuldade, agarrando-se ao braço dele. Não precisou ver seu rosto inteiro. Uma mãe reconhece o próprio sangue antes dos olhos.
— Mateo — sussurrou.
O cavaleiro ficou imóvel.
15 anos antes, Mateo Salvatierra havia saído de El Aguaje com uma raiva que não cabia dentro de casa. Jurara voltar quando encontrasse sua irmã Lucía, desaparecida numa tarde de feira em Ures. Nunca voltou. O povoado disse que ele havia virado bandoleiro, depois escolta de contrabandistas, depois caçador de homens. Outros o chamavam de O Coiote da Serra. Mercedes nunca aceitou que ele estivesse morto.
Roque empalideceu ao ouvir o nome.
— Você não tem o direito de voltar aqui.
Mateo o olhou como se olha uma dívida antiga.
— E você não tinha o direito de enforcar minha mãe.
O capataz quis bancar o valente. Mateo disparou na aba de seu chapéu e a arrancou sem tocar sua pele. O homem ficou tremendo, com a careca brilhando ao sol.
Roque soltou a escritura. Suas mãos já não pareciam de dono.
— Você vai se arrepender. Não sabe quem está por trás disso.
Mateo recolheu o papel da poeira.
— Então vou descobrir.
Roque montou com seus homens e foi embora, levantando uma nuvem de terra. O povoado continuou olhando, agora com culpa. Mercedes entrou na casa apoiada no filho. A cozinha cheirava a café requentado, pimenta seca e madeira velha. A cadeira de Julián continuava junto à mesa, intocável.
Mercedes tirou de dentro da blusa uma bolsinha de algodão cru. Ela a havia apertado enquanto tentavam enforcá-la. Dentro havia uma foto antiga de Lucía, uma carta fechada e um recibo amarelado com o carimbo de uma cantina.
Mateo leu o nome: La Dalia Roja.
— De onde saiu isto?
Mercedes engoliu em seco.
— Uma moça trouxe há 6 dias. Chamava-se Inés Duarte. Estava fugindo. Disse que viu o nome de Lucía num caderno de pagamentos.
Mateo parou de respirar.
— Lucía morreu.
— Foi o que outros disseram. Eu nunca disse.
Lá fora, um cavalo relinchou na escuridão que começava a cair. Depois alguém atirou uma pedra pela janela. Ela vinha envolta num lenço preto. Mateo a levantou e encontrou uma nota escrita com tinta borrada:
“Se procurarem Lucía, enterrem Mercedes primeiro.”
Parte 2
Mateo não dormiu naquela noite. Ficou sentado diante da porta com o rifle atravessado sobre as pernas, ouvindo o vento bater nas telhas de zinco do curral. Mercedes, teimosa mesmo ferida, colocou café no fogão como se o mundo não tivesse acabado de se partir.
— Você não vai sozinho — disse ela.
— Não vou levar a senhora.
— Não pedi permissão. Eu disse que você não vai sozinho.
Mateo a olhou. Em seu rosto havia marcas recentes, mas também uma dureza mais antiga. A mesma que ele se lembrava de ver quando era menino, quando ela carregava baldes de água sem se queixar.
— Inés está viva — disse Mercedes. — Ou estava quando chegou. Homens de Roque a perseguiam.
Antes do amanhecer, Mateo seguiu as pegadas até o caminho velho da estação. Encontrou uma fita azul presa entre os nopais, depois marcas de carroça e sangue seco sobre uma pedra. Ao meio-dia, chegou a um depósito abandonado junto aos trilhos. Entrou sem se anunciar.
Lá dentro havia 3 homens e uma moça amarrada a um poste. Inés tinha o rosto sujo, o lábio partido e os olhos acesos de coragem. Um dos homens a chamou de mentirosa. Outro disse que Roque pagava melhor se ela chegasse viva, mas calada.
Mateo apagou o lampião com um disparo. Na escuridão houve golpes, xingamentos, 2 tiros e um corpo caindo sobre sacos de milho podre. Quando a luz voltou pelas frestas, os homens estavam no chão e Mateo cortava as cordas de Inés.
Ela o empurrou de leve ao ficar livre.
— Você demorou muito.
— Eu não sabia que devia vir.
— Os homens desta família sempre sabem tarde demais.
Mateo não respondeu. Inés tirou da saia algumas folhas dobradas, manchadas de suor.
— La Dalia Roja não é só uma cantina. É uma parada. Mulheres, peões, meninas perdidas. Eles os movem de trem como se fossem sacos.
Mateo abriu as folhas. Havia nomes, datas, números de vagão, pagamentos a policiais e assinaturas de comerciantes. Em uma linha, escrita com tinta preta, estava Lucía Salvatierra. Ao lado de seu nome aparecia uma data recente.
Mateo sentiu o chão desaparecer.
— Isso não pode ser.
— Ela foi movida muitas vezes. Usaram-na como garantia porque sabia nomes. Sua irmã está viva, Mateo. Mas, se Roque souber que você tem estas folhas, vão mudá-la de lugar ou matá-la.
Voltaram a El Aguaje ao anoitecer. Mercedes viu Inés e colocou um prato de caldo diante dela sem perguntar nada. Sobre a mesa, espalharam os papéis. Ali apareceu o pior: a assinatura de Roque não estava sozinha. Também estava a de don Anselmo Valdés, presidente municipal e padrinho de batismo de Lucía.
Mercedes levou a mão ao peito.
— Ele carregou minha menina quando ela nasceu.
— E a vendeu quando ela cresceu — disse Inés.
A frase caiu sobre a casa como um teto desabando.
De repente, uma bala atravessou a janela e quebrou a xícara de Julián. Depois outra acertou a parede, ao lado do retrato da família. Mateo jogou Mercedes no chão e Inés apagou o lampião. Lá fora, gritaram para que entregassem o caderno.
— Sabemos que vocês estão com ele!
Mateo respondeu com um tiro para o alto, não para matar, mas para dizer que a casa não estava vazia. Os atacantes foram embora depois de alguns minutos, deixando cartuchos e uma ameaça clara.
À meia-noite, bateram à porta: 3 batidas, pausa, mais 1. Era Clara Beltrán, dona de uma pensão em Hermosillo. Vestia preto e trazia poeira até nas sobrancelhas.
— A saída é amanhã — disse ela, colocando um horário de trem sobre a mesa. — Vagão 7. Rota para o sul. Se Lucía aparece nesses papéis, ela vai nele ou eles sabem onde escondê-la.
Inés comparou os números. Coincidiam.
Mercedes olhou para Mateo.
— Se você for, talvez não volte.
Ele guardou o revólver.
— Se eu não for, Lucía nunca volta.
Clara baixou a voz.
— Há mais uma coisa. Roque não quer o rancho só pela água. Quer apagar o túmulo de Julián.
Mercedes levantou o olhar.
— Por quê?
Clara tirou uma segunda folha. Era uma ata antiga, com a assinatura de Julián. Dizia que, antes de morrer, ele havia deixado um testemunho sobre a rede, com nomes e pagamentos, enterrado “onde ninguém toca por respeito”.
Mateo entendeu antes da mãe.
A prova final estava sob o túmulo de seu pai.
Parte 3
Mercedes não deixou que ninguém cavasse sem ela. Embora seu pescoço doesse e ela caminhasse devagar, saiu ao pátio com uma pá pequena e um lampião. Mateo quis impedi-la, mas ela sustentou seu olhar.
— Fui eu que me despedi de Julián. Se ele escondeu algo debaixo da própria terra, sou eu quem recebe.
Cavaram atrás da cruz de madeira, sob as pedras brancas que Mercedes limpava todo domingo. Inés vigiava o caminho e Clara segurava o lampião com mãos firmes. Depois de meia hora, a pá de Mateo bateu em metal. Ele tirou uma caixa de folha-de-flandres envolta em couro.
Dentro havia cartas, recibos, nomes, rotas e uma foto que deixou todos sem fala. Na imagem aparecia Roque, muito mais jovem, de pé ao lado de don Anselmo Valdés e vários homens diante da La Dalia Roja. Ao fundo, quase invisível, uma menina de tranças olhava para a câmera. Era Lucía.
Mercedes caiu de joelhos.
— Julián sabia.
Mateo apertou a foto.
— Por que ele não disse nada?
Clara respondeu com tristeza.
— Talvez quisesse reunir provas. Talvez o tenham matado antes.
Aquele silêncio foi pior que um grito. A morte de Julián já não parecia doença, nem acidente, nem cansaço. Parecia castigo.
Não havia tempo para luto. O trem saía ao amanhecer. Mateo, Inés e Clara partiram para a estação de Carbó com os papéis escondidos sob a roupa. Mercedes ficou em El Aguaje com o rifle de Julián e uma frase cravada na boca:
— Traga minha filha ou traga a verdade inteira.
A estação estava cheia de vendedores de café, soldados bocejando, mulheres com cestas e homens que fingiam não vigiar. O vagão 7 ficava no fim, fechado com cadeado e vigiado por 2 sujeitos de chapéu largo. Inés passou primeiro, vendendo tamales embrulhados em guardanapos. Clara entrou pelo lado da bagagem como se todo mundo lhe devesse alguma coisa. Mateo esperou nas sombras, lendo os movimentos.
Quando o apito soou, os guardas baixaram a atenção por um instante. Foi suficiente. Mateo golpeou um deles com a coronha e Clara jogou pimenta moída nos olhos do outro. Inés abriu o cadeado com uma chave roubada da La Dalia Roja.
Lá dentro não havia mercadoria. Havia 5 mulheres, 2 rapazes e uma figura sentada no canto, coberta com um xale cinza.
— Lucía — sussurrou Inés.
A mulher levantou o rosto. Já não era a menina da foto. Tinha pequenas cicatrizes perto da boca, o cabelo cortado sem cuidado e olhos velhos demais. Mas, quando viu Mateo, algo em seu rosto se quebrou.
— Mateo.
Ele se ajoelhou diante dela como se todo o deserto lhe caísse sobre os ombros.
— Perdoe-me.
Lucía tocou sua face.
— Você veio.
— Tarde.
— Mas veio.
Não puderam se abraçar por mais tempo. Lá fora soaram gritos. O trem começou a se mover. Mateo ajudou Lucía a se levantar, mas ela quase caiu. Inés a segurou.
— Respire. Já estamos saindo desta.
Saltaram do vagão quando o trem reduziu a velocidade numa curva. Rolaram entre poeira e pedras. Clara machucou um braço, mas não soltou os papéis. Correram até um riacho seco, onde um velho carroceiro amigo de Clara os esperava. Quando os homens de Roque revisaram o vagão, já não havia ninguém.
O destino seguinte foi o juizado de Magdalena, onde um juiz idoso, don Evaristo Molina, ainda era famoso por não aceitar presentes. Chegaram à noite, sujos, feridos e com Lucía tremendo sob um sarape. O juiz leu as provas durante horas. Não falou até o céu começar a ficar azul.
— Com isto não cai um homem. Cai meio estado.
— Então que caia — disse Mercedes da porta.
Todos se viraram. Ela havia chegado sozinha, montada na velha égua de Julián, com o pescoço enfaixado e o rifle no ombro. Lucía a viu e soltou um som pequeno, quebrado.
Mercedes caminhou até ela. Durante 15 anos havia imaginado aquele abraço. Nenhuma imaginação foi suficiente. Mãe e filha se sustentaram sem palavras, chorando em silêncio, como se o corpo não soubesse como voltar de tanta ausência.
— Minha menina.
— Mamãe.
Mateo baixou o olhar. A culpa pesava mais que qualquer arma.
Lucía o chamou.
— Você não foi embora por covardia. Foi embora porque também era uma criança.
Ele negou com a cabeça.
— Eu devia ter encontrado você.
— Você me encontrou hoje. Às vezes hoje é tudo o que resta.
Não tiveram tempo de respirar paz. Lá fora chegaram cavalos. Roque, don Anselmo e vários homens armados cercaram o juizado antes do sol nascer. Roque gritou que entregassem a mulher e os documentos. Don Anselmo, com voz de santo apodrecido, disse que tudo era uma confusão familiar.
Mercedes saiu à sacada do juizado com a foto na mão.
— Também foi confusão vender minha filha?
As pessoas do povoado, despertadas pelos disparos e pelo escândalo, começaram a se juntar na praça. Alguns reconheceram assinaturas. Outros reconheceram nomes de filhas, sobrinhas e empregadas que haviam desaparecido “por ir para o norte”. A vergonha virou fúria.
Roque apontou para Mercedes.
— Cale a boca, velha.
Mateo apareceu atrás dela e levantou o revólver.
— Abaixe essa arma, tio.
Roque riu com raiva.
— Você é igual a mim. Sangue Salvatierra. Violento, teimoso, maldito.
Mateo olhou para a mãe, depois para Lucía.
— Não. Eu sou filho de Mercedes.
O disparo de Roque saiu torto quando Inés lhe atirou uma pedra pela lateral. Mateo atirou na arma e a arrancou de sua mão. A multidão avançou sobre os outros. Não foi uma justiça limpa, porque no México a justiça raramente chega limpa; foi uma justiça empurrada por mães cansadas de rezar diante de portas fechadas.
Don Anselmo tentou fugir vestido de autoridade, mas Lucía caminhou até ele e cuspiu aos seus pés.
— O senhor me carregou no meu batismo.
O homem não conseguiu olhá-la.
Dias depois, os nomes da La Dalia Roja apareceram colados nas portas do mercado, da igreja e do palácio municipal. O juiz mandou cópias para a capital. Algumas pessoas caíram. Outras escaparam. Mas o silêncio, esse sim, nunca mais se levantou do mesmo jeito.
O rancho El Aguaje continuou sendo de Mercedes. O túmulo de Julián ficou intacto, embora agora tivesse uma segunda cruz pequena ao lado, não por um morto, mas pelos anos perdidos. Lucía começou a dormir com a janela aberta. Inés ficou no rancho, não como hóspede, mas como família conquistada na guerra. Clara voltou para sua pensão com mais segredos do que medo.
Certa tarde, Mateo encontrou Mercedes junto ao poço, olhando para o mezquite onde quase a mataram.
— Vou embora quando a senhora estiver segura — disse ele.
Mercedes não olhou para ele.
— Você foi embora por 15 anos achando que casa era um lugar. Não é. Casa é onde alguém espera por você, mesmo quando todos dizem que você não volta mais.
Mateo ficou ao lado dela. Pela primeira vez em muito tempo, não teve pressa.
Ao cair da noite, Lucía saiu com uma xícara de café para o irmão. Mercedes deixou outra na cadeira vazia de Julián. Ninguém disse nada. O vento moveu as folhas do mezquite, e a corda velha, cortada e enterrada sob a terra, já não pôde tocar ninguém.
