
Parte 1
Roberto Anselm riu ao vivo quando Airton Sena da Silva falou de Deus no cockpit, e aquele riso atravessou o estúdio como uma bofetada pública.
Era outubro de 1987, no centro de São Paulo, e o programa esportivo de maior audiência da noite parecia preparado para uma entrevista comum. As câmeras estavam alinhadas, a mesa redonda de vidro refletia as luzes quentes, e os técnicos se moviam com aquela pressa silenciosa de quem sabia que qualquer erro viraria bronca no ponto eletrônico.
Roberto, 48 anos, 22 anos de carreira, terno cinza impecável e voz de autoridade, estava confortável demais. Já tinha entrevistado campeões, cartolas, ídolos de estádios lotados. Para ele, nada naquele jovem piloto de 27 anos poderia tirá-lo do eixo.
Airton chegou sem comitiva, sem empresário, sem pose de estrela. Usava jeans, camisa branca aberta no colarinho e carregava no rosto uma seriedade que não combinava com televisão. Não era arrogância. Era como se uma parte dele ainda estivesse presa em alguma curva distante, ouvindo um motor que ninguém mais ouvia.
A entrevista começou calma. Temporada, Lotos, 1988, McLaren, a possível convivência com Alan Prost. Airton respondia pouco, mas respondia com precisão. Cada palavra parecia escolhida como marcha numa reta curta: nenhuma sobrava.
Então Roberto inclinou o corpo para a frente, olhou de relance para a câmera 2 e sorriu.
— Airton, numa entrevista para uma revista alemã, você disse que em Mônaco entrou num estado quase de transe, como se não fosse mais você guiando o carro. Quero perguntar seriamente: você acredita mesmo nisso ou falou para criar uma lenda bonita para a imprensa europeia?
Um assistente abaixou os olhos. A produtora parou com a caneta no ar. Havia um jeito de perguntar que não buscava resposta, buscava espetáculo. Roberto sabia disso. O público adorava quando um herói era apertado até parecer humano demais.
Airton permaneceu imóvel.
Roberto, achando que o silêncio era permissão, soltou um riso curto. Não foi alto, mas foi pior: foi íntimo, seco, cheio de superioridade. O tipo de riso que diz “isso é coisa de louco” sem precisar dizer.
Airton não desviou o olhar.
— Sim, eu acredito.
A voz saiu baixa. Nenhum drama, nenhum esforço para convencer.
— Eu estava mais rápido do que sabia ser possível. Mais rápido do que qualquer treino, qualquer cálculo, qualquer memória do meu corpo. Em algum momento, as decisões deixaram de passar pela minha cabeça. O carro ia antes de eu pensar. Minhas mãos sabiam antes de mim.
Roberto tentou manter o sorriso.
— Então você diria que havia algo divino ali?
— Eu diria que havia algo além do medo, além do cálculo e além do que eu consigo explicar.
O silêncio ficou pesado. Um operador engoliu seco atrás da câmera. Roberto rabiscou algo nos papéis para disfarçar o desconforto e mudou de assunto como quem fecha uma porta antes que entre vento demais.
Quando a gravação terminou, Airton apertou a mão dele com firmeza.
— Obrigado pelo convite.
Saiu pela lateral do estúdio sem olhar para trás.
Mas a ferida não terminou ali. Nos bastidores, Roberto repetiu a história para a equipe, imitando o tom sério do piloto. Alguns riram. Um redator chegou a sugerir um título cruel para a chamada da entrevista: “O místico das pistas”. Um produtor, querendo audiência, guardou a frase como munição.
Dias depois, em Ímola, Airton recebeu uma ligação de um mecânico brasileiro que soubera das piadas. Ele ouviu tudo calado, sentado numa cama de hotel, com os sapatos ainda sujos do paddock.
— Estão te tratando como fanático, Airton. Como se você tivesse inventado isso para aparecer.
Airton olhou pela janela, para a noite italiana imóvel.
— Eu não corro para eles acreditarem.
— Mas vão usar isso contra você.
— Então que usem.
Na manhã seguinte, durante um teste da McLaren, o assunto parecia esquecido por todos, menos por ele. A pista estava fria, os engenheiros queriam dados, os mecânicos queriam respostas, e Niki Lauda observava tudo com o olhar duro de quem jamais confundia poesia com desempenho.
Na curva 2, Airton fez algo que não cabia na planilha. Freou tarde demais, acelerou cedo demais e saiu mais rápido do que o limite previsto. A telemetria acusou 4 décimos de vantagem num trecho onde qualquer erro destruiria o tempo inteiro.
Lauda olhou os números, franziu a testa e mandou repetir a leitura.
Não havia erro.
Mais tarde, ele encontrou Airton nos boxes.
— Como você fez aquilo na curva 2?
Airton viu o papel, depois a pista.
— Eu não calculei do jeito que vocês calculam.
— Então como?
— O carro falou antes.
Lauda ficou parado, sério, sem rir.
— Se isso é loucura, então a loucura acabou de ser 4 décimos mais rápida que a razão.
Naquela noite, a frase correu pelos boxes como fogo baixo. E, em São Paulo, uma fita ainda guardava o riso de Roberto Anselm, esperando o dia em que aquele riso seria cobrado diante de milhões.
Parte 2
A temporada de 1988 começou com o Brasil esperando de Airton Sena da Silva mais do que vitórias: esperava uma espécie de vingança contra tudo que o país engolia calado. No Rio de Janeiro, em Jacarepaguá, as arquibancadas pareciam respirar junto com ele. Bandeiras verdes e amarelas tremiam num calor de 34º, a umidade fazia a camisa colar no corpo, e dentro do cockpit a temperatura parecia transformar cada volta numa prova de resistência. Roberto Anselm estava credenciado na cobertura, microfone na mão, cercado por assistentes e câmeras. Ele ainda carregava o conforto de quem achava que aquela entrevista de 1987 tinha sido apenas uma cena curiosa. Mas havia uma tensão nova nos corredores do paddock: a produção do programa decidira reprisar, antes da corrida, um trecho editado da entrevista em que o riso de Roberto aparecia logo depois da fala de Airton sobre o transe em Mônaco. A chamada insinuava que o Brasil torcia por um gênio, mas talvez também por um homem que confundia fé com velocidade. A equipe de Airton soube da edição minutos antes da largada. Um assessor tentou esconder, um mecânico praguejou, e alguém perguntou se devia contar a ele. Não precisou. Airton viu de relance a televisão de um camarote enquanto caminhava para os boxes. Viu seu próprio rosto sério, ouviu o riso de Roberto, ouviu a narração maliciosa da emissora. Não disse nada. Apenas colocou o capacete com uma calma que assustou quem estava perto. Nas primeiras 20 voltas, ele liderou com autoridade. Alan Prost vinha atrás, perfeito, frio, cirúrgico. O público gritava como se pudesse empurrar o carro pela reta. Então, na volta 28, a telemetria da McLaren acusou uma irregularidade no câmbio. Primeiro pequena. Depois grave. As trocas começaram a falhar, como se a máquina hesitasse entre obedecer e quebrar. Pelos dados, Airton deveria perder ritmo. Deveria proteger o carro, aceitar que uma vitória se transformasse em sobrevivência. Mas aconteceu o contrário. A cada volta, os tempos desciam. Não muito para o público perceber de imediato, mas o bastante para os engenheiros ficarem pálidos diante dos monitores. O carro estava ferido, e o piloto parecia mais inteiro. Prost não errava, mas a diferença aumentava. Roberto recebeu um relatório técnico preliminar ainda durante a transmissão. O assistente Marco colocou o papel na mão dele com a expressão de quem entregava uma notícia impossível. O câmbio estava falhando havia várias voltas. Mesmo assim, Airton era mais rápido nas curvas em que deveria perder tudo. Roberto leu uma vez, depois leu de novo. Pela primeira vez, a lembrança do próprio riso não pareceu uma piada, mas uma dívida. Na volta final, o autódromo inteiro se levantou. Airton cruzou a linha de chegada, vencedor, e o som da arquibancada pareceu rachar o céu. Quando parou no parque fechado, demorou alguns segundos antes de sair do carro. Tirou o volante, apoiou as mãos nas bordas do cockpit e olhou para cima, não para as câmeras, não para o público, mas para um ponto invisível que só ele parecia reconhecer. Roberto, a poucos metros dali, viu tudo. O produtor gritou no ponto eletrônico que era hora de entrevista, que aquilo daria audiência, que ele deveria perguntar sobre Deus outra vez. Roberto caminhou até a tenda de imprensa com o microfone na mão, mas já não tinha o mesmo sorriso. Quando chegou sua vez, diante de todos os jornalistas, ele encarou Airton e fez a pergunta que antes usaria como armadilha. Desta vez, sua voz saiu diferente: nas últimas 10 voltas, com falha no câmbio confirmada, como ele explicava ter ficado mais rápido? Airton olhou para ele, reconheceu o homem, reconheceu o riso, reconheceu a chance de esmagá-lo. Mas não levantou a voz. Apenas sorriu pequeno, doloroso, quase triste. A resposta que veio em seguida fez a tenda inteira prender a respiração.
Parte 3
— Você sabe, Roberto.
A tenda ficou sem som.
Airton segurava a toalha sobre os ombros, o rosto molhado de suor, os olhos fundos como se ainda estivesse vendo a pista passar a 300 km/h.
— Em Mônaco, eu disse que houve um momento em que o carro parecia ser guiado por algo que não era só pensamento. Você riu.
Roberto não tentou interromper. O microfone em sua mão parecia mais pesado.
— Hoje, nas últimas 10 voltas, o câmbio falhou. Os dados estão aí. O carro deveria perder tempo. Eu deveria proteger a máquina, aceitar o limite, administrar o problema. Mas, naquele instante, se eu pensasse demais, eu perdia. Então eu parei de discutir com o medo.
Um jornalista italiano inclinou o gravador para mais perto. Marco, atrás da câmera, sentiu o rosto esquentar.
— As mãos sabiam. O corpo sabia. O carro avisava antes de quebrar. Eu não estava sendo carregado por uma fantasia, Roberto. Eu estava num lugar onde a técnica existe, mas não é suficiente para explicar tudo.
Roberto respirou fundo.
— Você acha que fui injusto com você?
Airton demorou um segundo. Poderia humilhá-lo. Poderia devolver o riso diante do país inteiro. Poderia transformar aquele momento numa revanche perfeita. Mas havia nele uma dureza diferente, uma que não precisava ferir para vencer.
— Acho que você fez a pergunta errada.
Roberto baixou os olhos.
— E qual seria a pergunta certa?
— Não é se eu invento isso para parecer interessante. A pergunta certa é quanto de um ser humano ainda cabe nos números quando ele chega ao limite absoluto.
Ninguém falou nada por alguns segundos.
A câmera continuava ligada. O Brasil inteiro viu Roberto Anselm, o jornalista que nunca se impressionava, ficar sem resposta. Mas não houve triunfo cruel no rosto de Airton. Havia cansaço. Havia uma tristeza limpa. Como se ele soubesse que não adiantava convencer todos, bastava não trair o que tinha vivido.
Naquela noite, a emissora tentou transformar o momento em chamada dramática. O produtor queria usar a frase “o piloto que desafia a lógica” com música pesada e cortes rápidos. Roberto recusou. Discutiu com a direção, bateu a mão na mesa e, pela primeira vez em 22 anos de carreira, ameaçou não entrar no ar.
— Vocês já riram dele uma vez usando a minha voz. Não vão fazer isso de novo.
O trecho foi exibido quase inteiro, sem montagem maldosa. E o silêncio da tenda, mais do que qualquer narração, disse tudo.
Airton venceu o campeonato mundial de 1988. Depois vieram novas vitórias, novas disputas, novas tardes em que engenheiros olhavam para dados e demoravam a aceitar que aquilo tinha acontecido. Roberto continuou cobrindo esporte, mas nunca mais tratou como delírio a linguagem de um atleta tentando explicar o inexplicável.
Em 1995, 1 ano depois da morte de Airton em Ímola, Roberto deu sua última entrevista antes de se aposentar. Estava mais velho, com a voz menos firme e os olhos marcados por uma culpa que não fazia teatro.
Perguntaram qual tinha sido o momento mais importante de sua carreira. Ele citou Copas, estádios, Pelé, Zico, noites históricas. Depois parou.
— Mas o momento que ainda me persegue foi em 1988, no Rio. Eu vi Airton Sena pilotar um carro ferido como se estivesse ouvindo uma ordem que nenhum engenheiro conseguia escutar. Eu ri dele antes. Depois os números me obrigaram a ficar em silêncio.
O jornalista mais jovem perguntou se ele acreditava, enfim, naquela história de algo além do piloto.
Roberto olhou para a mesa, como se visse novamente a fita de 1987, o riso curto, o rosto imóvel de Airton.
— Eu acredito que existem pessoas que chegam tão perto do limite que voltam de lá falando uma língua que nós ainda não aprendemos. E nós, por medo de parecer pequenos, chamamos essa língua de loucura.
Anos depois, a gravação daquela entrevista de outubro continuou guardada em arquivo. O riso ainda estava lá. Também estavam os relatórios técnicos da McLaren, as 10 voltas finais, o câmbio falhando, os tempos caindo, os engenheiros sem explicação completa.
Entre uma fita e outra, entre o deboche e a telemetria, ficou a história de um homem que não precisou discutir para provar nada. Ele apenas entrou num carro, encarou a curva, ouviu o que ninguém ouvia e deixou que os números confirmassem aquilo que sua fé já sabia.
