O cão-lobo do homem da montanha rompeu a corrente e correu em direção à sua esposa por correspondência. Todos acharam que ele iria atacá-la… até entenderem por que havia escolhido justamente ela.

PARTE 1

Amalia Ríos caiu de joelhos na lama antes de entender por que um cão-lobo de 45 quilos havia rompido a corrente e corria diretamente em sua direção.

O animal atravessou a rua principal de San Miguel de la Sierra como uma sombra cinzenta saída da mata. A diligência acabara de parar diante da agência dos correios, com as rodas cobertas de barro e os passageiros exaustos depois de 2 dias de viagem desde Zacatecas. Uma criança gritou. Uma mulher cobriu a boca com o xale. O cocheiro soltou um palavrão e recuou até encostar na parede de adobe.

Mas o cão não mordeu ninguém.

Passou entre todos, com os olhos claros fixos em Amalia, e se lançou contra seu peito com tanta força que a derrubou no chão. Depois, enfiou a cabeça enorme sob o queixo dela e soltou um gemido partido, desesperado, como se estivesse esperando por ela havia anos.

Amalia não fugiu. Não conseguiu. Suas mãos, que haviam aprendido a tremer em silêncio desde a morte dos pais, fecharam-se ao redor do pescoço do animal. O pelo cinzento cheirava a terra fria, fumaça e mata. Então ela chorou. Chorou ali, diante de todo o povoado, com suas 2 malas caídas na lama e o vestido de viagem sujo até os joelhos.

—Vejam só —sussurrou uma mulher na entrada da farmácia—. Essa é a noiva por correspondência de Mateo Arriaga.

—Essa aí? —respondeu outra, sem baixar a voz—. Pois o homem devia estar muito sozinho para mandar buscar isso de tão longe.

Amalia ouviu cada palavra. Ela sempre ouvia. Desde os 9 anos, quando a professora disse à sua mãe que ela comia pão demais no recreio, aprendera que a crueldade quase nunca precisava gritar.

O cão continuava colado a ela, tremendo.

—Sombra.

A voz veio do outro lado da rua.

Mateo Arriaga caminhava lentamente, com o chapéu na mão e o olhar fixo no animal. Era mais alto do que suas cartas faziam parecer, largo de ombros, rosto magro e uma barba escura marcada por anos de sol e frio. Não parecia um homem acostumado a pedir desculpas, mas, quando parou diante de Amalia, foi exatamente o que fez.

—Senhorita Ríos, devo-lhe um pedido de desculpas. Sombra nunca fez isso. Nunca.

Amalia limpou as lágrimas com o dorso da mão.

—Ele não me machucou.

Mateo olhou para o cão, que agora estava sentado sobre a saia enlameada de Amalia como se tivesse tomado uma decisão legal.

—Já percebi.

—Também não me assustou —disse ela.

Mateo ergueu os olhos para ela. Não havia deboche em seu rosto. Tampouco pena. Aquilo a desconcertou mais que qualquer comentário.

—Há uma pensão ao lado da praça —disse ele—. Dona Remedios cuida do lugar. Pensei que gostaria de descansar antes de conversarmos sobre… todo o resto.

—Seria sensato.

Ela pegou uma das malas. Mateo pegou a outra sem arrancá-la de suas mãos. Caminharam juntos pela rua de pedras. Sombra colocou-se entre os 2, como um guardião.

Os olhares os acompanharam desde a padaria, do armazém e das portas entreabertas. Amalia caminhou com a coluna ereta. Tinha viajado 600 quilômetros para se casar com um homem que conhecia apenas por cartas, não para se encolher diante de desconhecidos.

Ao passarem diante da loja de tecidos, uma mulher com vestido azul levantou a voz.

—Dizem que ela veio de Puebla. Imagine só, uma mulher decente não viaja sozinha desse jeito.

Mateo cerrou a mandíbula.

—Não —disse Amalia em voz baixa.

Ele olhou para ela.

—Não vale a pena —acrescentou—. Nem para eles nem para o senhor.

Mateo permaneceu em silêncio durante 3 passos.

—Há quanto tempo suporta esse tipo de coisa?

Amalia continuou olhando para a frente.

—Desde que aprendi que as pessoas sempre encontram alguma coisa para pesar, medir ou apontar.

Não disse aquilo com raiva. A raiva exigia surpresa, e ela já não tinha mais surpresa disponível para aquilo.

Dona Remedios não fez perguntas. Deu-lhe um quarto limpo no segundo andar, com uma colcha bordada e uma janela voltada para a serra. Mateo deixou a mala junto à porta.

Antes de descer, parou.

—Senhorita Ríos.

Ela se virou.

—Sim.

—Li todas as suas cartas. Mais de 1 vez. E não houve uma única linha nelas que me fizesse esperar outra coisa além de conhecê-la.

Amalia sentiu alguma coisa se mover cuidadosamente bem no fundo de seu peito.

—Obrigada por dizer isso.

Mateo desceu as escadas. Sombra entrou no quarto sem permissão e se deitou ao lado da cama.

Naquela noite, enquanto o vento da serra batia contra a janela, Amalia colocou a mão sobre a cabeça do cão e pensou no barulho que ainda vivia dentro dela: latidos, gritos, uma rua escura de Puebla e a voz de sua mãe chamando-a pela última vez.

Sombra levantou as orelhas de repente.

Lá embaixo, na rua, um homem de terno preto parou diante da pensão e perguntou por ela.

Dona Remedios respondeu alguma coisa que Amalia não conseguiu ouvir.

Depois, escutou uma frase clara e fria, pronunciada com um sorriso envenenado:

—Diga à forasteira que San Miguel não perdoa as mulheres que chegam querendo mudar aquilo que não compreendem.

PARTE 2

O homem de terno preto chamava-se dom Severiano Luján, proprietário de 4 fazendas, 2 serrarias e quase todos os favores que podiam ser comprados em San Miguel de la Sierra.

Mateo explicou isso 2 dias depois, quando levou Amalia para conhecer seu rancho no alto da estrada antiga. O lugar não era grande, mas tinha terra escura, pinheiros ao redor e uma nascente que descia entre pedras claras. A casa estava descuidada, não por pobreza, mas por solidão: uma dobradiça quebrada, a despensa desorganizada e uma rachadura ao lado do fogão.

Amalia deixou o xale sobre uma cadeira e pediu ferramentas.

—Para quê?

—Para consertar aquela porta antes que ela caia.

Mateo piscou.

—A senhorita não precisa fazer isso.

—Eu sei. Por isso estou perguntando se tem pregos.

Ele tinha pregos.

Em 3 horas, Amalia consertou a porta, afastou a farinha da umidade, limpou o fogão e encontrou uma goteira que havia meses manchava uma viga. Mateo a observava como quem descobria um cômodo secreto dentro da própria casa.

—A senhorita pensa em voz alta —disse ele.

—Trabalho mais rápido assim.

—Não me incomoda.

—Que bom, porque faço isso com frequência.

Sombra dormia ao lado do fogão, mas de repente levantou a cabeça. Seu corpo inteiro ficou tenso.

—Ele faz isso sempre? —perguntou Amalia.

—Quando alguma coisa está chegando.

—O que costuma chegar?

Mateo olhou para a janela.

—Às vezes, chuva. Às vezes, problemas.

Os problemas chegaram no domingo, dentro da igreja.

Depois da missa, com metade do povoado ainda fazendo o sinal da cruz, dom Severiano parou no corredor central acompanhado por 3 homens respeitáveis. Não gritou. Homens como ele não precisavam gritar. Sabiam colocar a voz exatamente onde todos pudessem ouvi-la.

—Mateo, que bom vê-lo tão bem acompanhado —disse, olhando para Amalia—. Dizem que sua casa mudou bastante desde que a senhorita de Puebla chegou. Uma mulher com 2 malas e muitas decisões sempre muda as coisas, não é?

Algumas risadas discretas surgiram entre os bancos.

Amalia não abaixou o olhar.

—Também dizem —continuou Severiano— que um homem sozinho se acostuma rapidamente a qualquer companhia. Até mesmo àquela que, em outras circunstâncias, talvez não tivesse escolhido.

O silêncio ficou pesado.

Mateo se levantou.

—Vou responder aqui porque foi aqui que o senhor decidiu humilhá-la.

Sua voz era baixa, mas todas as pessoas se inclinaram para escutá-lo.

—Amalia Ríos é a mulher mais capaz e corajosa que pisou neste povoado em muitos anos. Chegou com 2 malas, sem garantias e com mais dignidade do que todos aqueles que falaram dela pelas costas. Ela não é objeto da minha pena. Não é meu último recurso. É minha escolha.

Ninguém se moveu.

Sombra, amarrado do lado de fora da igreja, começou a rosnar.

O sorriso de Severiano perdeu o calor.

—Que belo discurso. Espero que seja útil quando descobrir que a água de seu rancho não lhe pertence tanto quanto imagina.

Mateo ficou imóvel.

Amalia compreendeu antes de muitos. Não era deboche. Era uma ameaça.

Caminharam de volta ao rancho sem conversar. Assim que entraram, Amalia pediu a caixa de documentos.

—O que está procurando?

—O título original da propriedade.

Mateo olhou para ela com surpresa.

—Como sabe disso?

—Meu pai imprimia contratos, escrituras e processos judiciais. Eu revisava provas desde criança. Se Severiano mencionou a água diante de todos, é porque já alterou alguma coisa na prefeitura.

Dentro da caixa havia um antigo título de concessão, uma planta assinada 38 anos antes e uma referência à nascente como limite natural do rancho Arriaga. Amalia leu cada linha com rapidez e precisão.

—Se ele apresentar uma planta nova deslocando o marco da divisa, tentará tomar a nascente.

—Isso seria roubo.

—Homens como ele não chamam isso de roubo. Chamam de procedimento.

Na manhã seguinte, foram ao Registro de Terras. O responsável, dom Anselmo Barrera, examinou os documentos e empalideceu.

—Um topógrafo de Luján apresentou uma planta preliminar na sexta-feira. Desloca a linha 40 varas para o sul.

Mateo fechou os punhos.

Amalia colocou o dedo sobre o título original.

—Então impeça que seja certificada.

Dom Anselmo levantou os olhos.

—Quem encontrou esta referência?

—Ela —respondeu Mateo.

O homem olhou para Amalia de outra maneira. Já não como uma forasteira. Mas como alguém perigoso para uma mentira.

—Posso registrar como disputa de propriedade —disse—, mas Luján não ficará parado.

Quando saíram, Sombra não estava diante da porta.

Mateo assobiou 1 vez. Nada.

Amalia sentiu um frio na nuca.

Do beco ao lado do tribunal veio um gemido abafado. Eles correram. Sombra estava caído ao lado de uma carroça, com uma corda enrolada no pescoço e sangue no focinho. Ao lado dele, preso à madeira por uma faca, havia um papel.

Mateo o arrancou.

Amalia leu sem tocá-lo:

“Livre-se da mulher ou o próximo não será o cachorro.”

PARTE 3

Mateo carregou Sombra até o rancho com uma fúria tão silenciosa que assustava mais que qualquer grito. O cão respirava, mas muito pouco. Amalia ferveu água, rasgou lençóis limpos para fazer ataduras e segurou a cabeça do animal enquanto o curandeiro examinava seus ferimentos.

—Tentaram sufocá-lo, não matá-lo rapidamente —disse o velho—. Isso não foi obra de um animal. Foi obra de um covarde.

Mateo olhou para a porta.

—Vou procurar Severiano.

Amalia colocou-se diante dele.

—Não.

—Ele tocou em Sombra.

—É justamente por isso que o senhor não pode dar a ele o que deseja.

—E o que ele deseja?

—Que o senhor perca a cabeça diante de testemunhas. Que seja preso. Que o rancho fique abandonado. Que a nascente fique fácil de tomar.

Mateo respirava como se cada palavra lhe custasse alguma coisa.

—Não vou ficar parado.

—Não vai ficar parado. Vai agir com inteligência.

Sombra abriu levemente os olhos. Amalia apoiou a testa em seu pelo.

—Ele não correu até mim para que agora o usássemos como desculpa para nos destruir.

Naquela noite, enquanto Mateo vigiava o cão, Amalia voltou a examinar os documentos. Encontrou o que procurava pouco antes do amanhecer: uma anotação antiga sobre a primeira medição da propriedade, assinada por 2 testemunhas. Um dos sobrenomes era Barrera. O outro, Luján.

O avô de Severiano havia assinado a planta original.

Quando Amalia mostrou o documento a Mateo, ele permaneceu em silêncio durante vários segundos.

—Se isso for verdade…

—Ele não apenas sabia que a água era sua —disse ela—. A família dele reconheceu isso por escrito.

Ao meio-dia, dom Anselmo confirmou que a assinatura correspondia ao arquivo antigo. Também confirmou outra coisa: o topógrafo de Severiano havia usado um selo falso para acelerar o procedimento.

A audiência aconteceu na quinta-feira, no salão municipal. Foi impossível mantê-la em segredo. Em San Miguel, onde todos haviam opinado sobre a chegada de Amalia, todos queriam presenciar sua derrota ou sua vitória.

Dom Severiano chegou vestido de preto, acompanhado do advogado e usando o mesmo sorriso que ostentava desde o início. Mateo entrou com Amalia ao seu lado. Sombra ainda não conseguia caminhar direito, mas apareceu atrás deles, lento, enfaixado e teimoso. Todo o salão começou a murmurar ao vê-lo.

—Esse animal não deveria estar aqui —disse Severiano.

Amalia olhou para ele.

—Curioso. O senhor também não deveria, mas aqui estamos.

Algumas pessoas soltaram risadas nervosas.

O juiz municipal pediu silêncio. Severiano falou primeiro. Disse que Mateo havia confundido os limites, que uma mulher recém-chegada o manipulara e que o povoado não poderia depender de documentos antigos quando havia “progresso” em jogo.

Então Amalia colocou o título original sobre a mesa.

—Este documento reconhece a nascente como limite do rancho Arriaga. Esta planta tem 38 anos. Esta assinatura pertence a Evaristo Luján, avô de dom Severiano. E este selo, usado na planta nova, não pertence ao Registro de Terras.

O advogado de Severiano se levantou.

—A senhorita não é perita.

—Não —disse dom Anselmo do fundo do salão—. Mas está certa.

O salão explodiu em murmúrios.

Dom Anselmo avançou e colocou o livro de registros aberto diante do juiz.

—A planta nova é inválida. E, se o selo foi falsificado, isto já não é uma disputa de terras. É um crime.

O rosto de Severiano mudou. Pela primeira vez, seu sorriso não encontrou onde se esconder.

—Todo este escândalo por causa de uma forasteira —cuspiu—. Uma mulher que chegou chorando na lama, abraçada a um cachorro.

Mateo deu 1 passo à frente, mas Amalia levantou a mão.

—Sim —disse ela—. Chegou chorando. Porque perdeu os pais em uma rua de Puebla, atacados por cães abandonados enquanto as autoridades olhavam para o outro lado. Chegou com medo, com 2 malas e com cicatrizes que ninguém aqui se deu ao trabalho de conhecer antes de julgá-la.

O salão ficou imóvel.

Amalia continuou, com a voz firme:

—E aquele cão, que o senhor mandou machucar, foi o primeiro neste povoado a olhar para ela sem deboche. Talvez tenha sido isso que tanto o incomodou. Porque Sombra viu em 1 minuto aquilo que o senhor não conseguiu enxergar durante toda a sua vida: uma pessoa ferida não é uma pessoa fraca.

Mateo olhava para ela como se cada palavra terminasse de construir alguma coisa dentro dele.

O juiz ordenou a suspensão da planta, a abertura de uma investigação por falsificação e a intimação do topógrafo. Severiano saiu do salão em meio aos murmúrios, já sem os 3 homens respeitáveis atrás dele. Ninguém quis caminhar ao seu lado.

Do lado de fora, dona Remedios aproximou-se de Amalia com uma cesta de pães.

—Devo-lhe um pedido de desculpas —disse.

Amalia olhou para ela com cansaço, mas sem dureza.

—É melhor comprar linha de mim quando eu abrir meu ateliê.

Dona Remedios piscou.

—Vai abrir um ateliê?

—Sim. Neste povoado, as pessoas falam muito sobre o valor de uma mulher. Achei que seria bom cobrar para que vissem de perto.

Mateo soltou uma risada baixa. Sombra moveu a cauda 1 vez, como se aprovasse o plano.

Semanas depois, Mateo pediu Amalia em casamento sem fazer um grande discurso, colocando um anel simples de prata sobre a mesa do rancho.

—Não sei dizer coisas bonitas —disse—. Sei que li suas cartas mais vezes do que consigo contar. Sei que consertou minha casa antes mesmo de tirar o xale. Sei que defendeu minhas terras como se também fossem suas. E sei que Sombra confiou na senhorita antes de qualquer pessoa. Eu confio nele. E confio em mim mesmo quando estou ao seu lado.

Amalia olhou para o anel. Depois olhou para o cão, adormecido ao lado do fogão, ainda com uma cicatriz fina sob o pescoço.

—Mateo Arriaga —disse—, o senhor foi o primeiro homem que me perguntou quem eu era antes de decidir quanto eu valia.

Ela aceitou.

Casaram-se em um sábado frio, com a igreja cheia e Sombra sentado ao lado do altar, sério como um padrinho idoso. Quando o padre disse que Mateo podia beijar a noiva, ele não esperou que a frase terminasse. O povoado riu, mas, dessa vez, a risada não feriu.

Acompanhou.

Com o passar dos anos, o ateliê de Amalia cresceu até ocupar um estabelecimento diante da praça. O rancho Arriaga conservou sua nascente. Severiano perdeu influência pouco a pouco, que era a única maneira justa de perder para um homem que havia passado a vida comprando vitórias rápidas.

Sombra morreu muitos anos depois, sob o sol da tarde, no mesmo lugar ao lado do fogão onde decidira ficar desde o primeiro dia. Mateo e Amalia o enterraram perto da nascente.

—Ele soube antes de nós —disse Mateo.

Amalia olhou para a terra recém-colocada.

—Não perdeu tempo.

—Viu 2 pessoas solitárias.

—E decidiu fazer alguma coisa.

O vento movimentou os pinheiros. A água continuou descendo entre as pedras, límpida e teimosa. Amalia segurou a mão de Mateo e pensou que algumas vidas não começam quando tudo está limpo e preparado, mas quando alguém, ou até mesmo um cão ferido pelo mundo, olha para você no meio da lama e decide que você ainda é suficiente para construir um lar.

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